No sentido oposto à fria indústria da cesárea, renasce a acolhedora figura da parteira

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Por Suely Carvalho

Suely Carvalho

O ato de parir é biológico, fisiológico e natural, mas também social e familiar. É moldado pela cultura e pela tradição. O parto tradicional, uma herança de nossos ancestrais, permite a interação social e conta a história de um povo. Reforça suas crenças, expõe suas emoções, define suas relações sociais e reafirma a identidade sociocultural coletiva. Esse sistema de pertinências e significados se manifesta no parto. Assim, o modo como se nasce, o local onde se nasce, a forma de dar à luz e de nascer, e quem atende o parto é tão importante quanto o próprio ato do nascimento. É um gesto que passa a integrar a memória sociocultural de uma família e de uma comunidade.

Em um contexto antropológico o modo de partejar explica e é explicado pelas manifestações culturais e sociais, servindo como reflexo de uma época. Nenhum nascimento é neutro. O ato de nascer atende a uma função orgânica e social (de manutenção da espécie). Já o partejar é um ato cultural, pois se constitui de atitudes, ligadas as crenças, costumes, protocolos, condutas e situações. Um parto evoca a memória e desperta lembranças da ancestralidade. Esse contexto simbólico é que nos alerta para a importância da preservação do “saber fazer” do parto tradicional, da manutenção e transmissão continuada do conhecimento adquirido por nossos antepassados. Assim fortalecemos a identidade e as práticas de um patrimônio cultural imaterial.

Mais do que às técnicas, essas maneiras de “atender o parto” estão relacionadas aos significados atribuídos aos nascimentos e ao ato do nascer, dados pelo grupo social em que se está inserido. O parto é também um ato de perpetuação e assimilação sociocultural. Mas, nas últimas décadas, ele se transformou em negócio, algo a ser comercializado e que deve gerar lucro, que envolve estabelecimentos comerciais (hospitais, clínicas, laboratórios) e profissionais (médicos, enfermeiros, técnicos de saúde). Essa estrutura foi criada pelo processo de colonização cultural do pós-guerra, com a necessidade da criação de novos mercados consumidores para a indústria norte-americana de remédios e equipamentos hospitalares.

Não desconsideramos a importância de tais equipamentos, profissionais e remédios, porém não associamos o parto a doença ou a exceção, e sim a saúde e a normalidade. Pois sabemos que os partos de risco e que realmente precisam do ambiente hospitalar são a exceção e não a regra, e apenas em casos excepcionais deveria utilizá-lo. Concordamos e incentivamos esse tratamento para tais exceções.

A prática das parteiras ancestrais tem suas raízes na fusão dos saberes africano e indígena, que gerou um terceiro saber, adaptado a cada realidade local. O ambiente do partejar e as práticas utilizadas transcendem a figura da parteira e auxiliam na reprodução do imaginário acerca da ancestralidade. E é no parto tradicional que esse tempo ancestral volta a se tornar presente, renovado e atualizado. As rezas, as ervas medicinais, o canto, os instrumentos, a religião e a religiosidade remetem a aspectos que caracterizam e identificam a parteira, tornando-a símbolo da identidade social (é madrinha de muitos afilhados) e cultural da comunidade onde se insere.

As parteiras tradicionais são também arquétipos simbólicos dessa tradição ancestral. Recorrer ao conhecimento dessas pessoas, então, insere os integrantes da comunidade num continuum espaçotemporal onde esses elementos culturais são repassados, assimilados e repactuados. As parteiras com mais idade (as anciãs) tornam-se referência desse conhecimento que remete à memória coletiva, à ancestralidade comum.

Nosso ideal e nosso desafio consistem em transformar o que geralmente se considera acessório ou pitoresco (a cultura imaterial) em fator principal do autoconhecimento e da reapropriação da história pelo cidadão e pela comunidade. É uma tradição que foi vilipendiada pela homogeneização do nascer, por meio da indústria da cesárea. Mas essa ancestralidade é fundamental para formar a identidade de um povo, e não deve ser condenada a uma morte lenta e gradual.

Recebi o dom de parteira direto de minhas ancestrais. Assumi também a missão de formar outras parteiras (a quem chamo de afilhadas) e com elas estruturamos o Centro Ativo de Integração do Ser (CAIS do Parto) e a Escola de Saberes, Cultura e Tradição Ancestral (ESCTA), que se localizam em Olinda (PE) e se dedicam a passar adiante o conhecimento. Ao longo dos últimos 25 anos, organizamos a Rede Nacional de Parteiras Tradicionais e promovemos nove congressos internacionais. Também incentivamos o intercambio do partejar tradicional com escolas da América Latina e Caribe e difundimos essa ciência nos centros urbanos, onde formamos parteiras e doulas urbanas – que hoje atuam em 14 estados brasileiros. Em nossa escola, temos nas rodas dos casais grávidos um importante espaço para acolher famílias que desejam parir na tradição ancestral. Nesse espaço, incentivamos uma profunda conexão com a resiliência humana, na busca pela autocura a partir de elementos da natureza, honrando a ancestralidade e reencontrando o caminho da simplicidade.

Suely Carvalho é parteira tradicional, fundadora da ONG Cais do Parto e coordenadora da Rede Nacional de Parteiras Tradicionais do Brasil

Fonte:
(O Estado de S. Paulo, 11/07/2015) pdf http://agenciapatriciagalvao.org.br/wp-content/uploads/2015/07/estadao-11072015_Luz-ancestral-Alias-Estadao.pdf

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